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Entrevista Ilona Becskeházy

A diretora-executiva da Fundação Lemann diz que gestão eficiente melhora a escola e faz o aluno aprender


Educar

19/12/2008 15:42

Texto
Bruna Nicolielo

Foto: Cintia Sanchez
Foto: Gestão é uma das soluções para contornar deficiências do ensino, segundo Ilona

Gestão é uma das soluções para contornar deficiências do ensino, segundo Ilona

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Ilona Becskeházy aposta na gestão para alavancar a qualidade do ensino nas escolas brasileiras. A instituição que dirige, a Fundação Lemann, financia e desenvolve projetos nessa área, além de acompanhar com rigor os avanços de cada ação. "A melhoria da gestão escolar e a criação de mecanismos de avaliação de resultados mais efetivos são um caminho", diz ela. Apesar de saber que Educação é um processo intergeracional, que depende de investimentos em longo prazo, ela tem pressa. "Falta senso de urgência para resolver os problemas. É preciso tomar uma atitude drástica", dispara. Combativa, ela não se incomoda com a possibilidade de ser tachada de pavio curto. "Gosto de polêmica. De procurar soluções". Em entrevista à repórter Bruna Nicolielo, do projeto EDUCAR PARA CRESCER, ela explica o porquê de ensinar conceitos de gestão aos educadores e de aplicar avaliações, entre outros temas.


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Quais os problemas da Educação brasileira?
Ilona Becskeházy: Todos! Chegamos a um ponto em que está tudo errado. As metas estabelecidas pelo PDE (Plano de Desenvolvimento da Educação, do governo federal) devem ser cumpridas até 2022. Até lá, uma geração ficará desassistida, sem conhecimento suficiente para atender ao mercado. Falta senso de urgência para resolver os problemas da Educação brasileira. Ela sofre dos mesmos males que os outros serviços públicos. É preciso tomar uma atitude drástica para alcançar o sucesso do aluno. Mas solucionar todas as deficiências do sistema de ensino público não é uma tarefa de curto prazo.
2. Quais as linhas de atuação da Fundação Lemann?
Ilona Becskeházy: Desde 2002, estimulamos o aperfeiçoamento da gestão escolar por meio de do financiamento de projetos na área e desenvolvimento de programas próprios. Assim, esperamos contribuir efetivamente para a melhoria da qualidade de ensino no país. No Brasil, estamos tentando disseminar conceitos de gestão e de acompanhamento de resultados por meio do programa Gestão para o Sucesso Escolar (GSE). Trata-se de uma capacitação on-line para diretores de escolas públicas, desenvolvido com o apoio do Instituto Gestão Educacional (IGE). O objetivo do curso é fortalecer o papel do gestor como líder pedagógico e garantir a continua melhoria dos resultados dos alunos. Também temos um curso presencial em nível de especialização, que prepara os gestores para o desafio de liderar a evolução de sua escola, o Formação do Gestor Escolar (FGE), além de programas de concessão de bolsas, entre outros.
3. Qual é o alcance dos cursos?
Ilona Becskeházy: O GSE foi implantado em 2003 e desde então formou 600 diretores de 207 municípios, Em São Paulo, Santa Catarina, Ceará e Tocantins. Estimamos que cerca de 355 mil alunos tenham sido beneficiados. Já a primeira turma do FGE reuniu gestores responsáveis por mais de 70 mil alunos.
4. Como programas assim podem melhorar a Educação?
Ilona Becskeházy: Os recursos destinados ao ensino público poderiam render melhores resultados se fossem mais bem aplicados. Os próprios gestores das escolas podem fazer muito para melhor aproveitar seus recursos, materiais e humanos. A escola pública enfrenta uma série de dificuldades, desde a infra-estrutura deficiente às condições sociais dos alunos, passando muitas vezes pela falta de valorização do professor. Parte dessas dificuldades pode ser contornada com a adoção de métodos de gerência mais eficientes. Existe uma preocupação com a formação deste profissional no campo pedagógico, mas praticamente inexiste uma preparação para sua atuação como gestor. O aperfeiçoamento da gestão dos sistemas públicos de educação permite que as escolas passem a adotar práticas que estimulem a evolução da qualidade do ensino, fortalecendo a troca de experiências entre os professores e o trabalho em equipe. Esse trabalho exige constante revisão de prioridades e a identificação das principais dificuldades. Para isso, o gestor escolar precisa estar constantemente preocupado em avaliar o resultado das ações adotadas.
5. Qual a importância do diretor para o sucesso da escola?
Ilona Becskeházy: É o diretor que orquestra todos os recursos, humanos e materiais. Como um maestro, cabe a ele dar o ritmo para a equipe trabalhar de forma harmônica. O bom diretor não fica enclausurado em sua sala! Anda pela escola inteira, é visto pelos alunos e professores, conversa com os pais, vai à sala de aula. Assim, se coloca em contato permanente com todos, sabe o que vai bem, o que vai mal. É ele também que mobiliza os pais e as organizações sociais e culturais para que contribuam com a escola. Nenhum diretor deveria ser apenas um administrador preocupado em manter a casa em ordem. Seu papel é exercer uma liderança diferenciada. O grande desafio é motivar os funcionários a embarcar no mesmo sonho: construir uma escola em que todos os estudantes aprendam, sem exceção.
6. É possível obter melhoras a curto prazo?
Ilona Becskeházy: Sim. O curso de Gestão para o Sucesso Escolar é uma prova de que alguns resultados, como a melhoria contínua das competências de leitura e escrita, podem ser obtidos num prazo relativamente curto. Soluções simples dão resultado. Basta que a escola trabalhe muito e se preocupe em avaliar indicadores de desempenho constantemente.
7. Qual a importância das avaliações?
Ilona Becskeházy: No setor público, a prática de avaliação está apenas começando e na educação há uma resistência enorme a isso. O professor é quem dá aula. É quem está lá todo dia com o aluno, fazendo com que ele utilize seu potencial cognitivo para aprender. Mas também não é possível deixar tudo nas costas dele. Agora, é preciso haver um processo maior de responsabilização na educação brasileira. Há um discurso muito bem articulado de que educação é um processo longo e que não dá para avaliar. Dá, sim. Aqui na Fundação Lemann medimos tudo o que se faz e dá para ver as diferenças de um período para outro. As escolas particulares fazem isso há anos. Todo bimestre há avaliação. Então, se o país continuar aceitando esses dados como normais, por mais complexo que seja o sistema, a sociedade jamais vai interferir em nenhuma variável. O problema da educação no Brasil não é do aluno. Há uma concepção aceita de que os alunos vão mal porque são pobres. E isso não é e não pode ser aceito como verdade. Mas ainda é muito forte a cultura - esta bastante disseminada entre os professores - de que educar é uma coisa, avaliar resultados, outra. Não existe receita pronta para elevar a qualidade do ensino público. Mas a melhoria da gestão escolar e a criação de mecanismos de avaliação de resultados mais efetivos são um caminho.
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