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Entrevista Viviane Senna

A presidente do Instituto Ayrton Senna explica como a instituição combate a baixa qualidade da Educação no país


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28/09/2009 15:9

Texto
Otto Aquino

Foto: Reginaldo Teixeira
Foto: Viviane Senna

"Estamos fazendo com que as crianças não desistam da escola numa velocidade duas vezes maior que o resto do país"

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A psicóloga Viviane Senna, 51, é presidente do Instituto Ayrton Senna, desde a sua fundação, em novembro de 1994. Formada pela PUC-SP, com especialização em Psicologia Junguiana, ela atuou na área de 1981 a 1996. Em 94, assumiu os trabalhos do instituto, que nasceu do sonho de seu irmão campeão: dar oportunidades de desenvolvimento humano a crianças e a jovens por meio da Educação. "Nosso dever é fazer dessas crianças e desses jovens também vencedores, na escola e na vida. É para isso que trabalhamos todos os dias," diz Viviane.

Hoje, depois de 15 anos de experiências, o Instituto Ayrton Senna se consolidou na área em que optou trabalhar, o desenvolvimento de soluções educacionais replicáveis em larga escala. O instituto toca projetos voltados para a aceleração da aprendizagem e gestão escolar, todos com excelentes resultados, em 26 Estados e no Distrito Federal. "Estamos fazendo com que as crianças não desistam da escola numa velocidade duas vezes maior que o resto do país". O instituto também dá consultoria a empresas, governos ou pessoas físicas interessadas em abraçar a causa da Educação.


Reconhecida pela importância de seu trabalho à frente do instituto, Viviane é membro de conselhos e comitês técnicos, como o Gife (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas) e Todos pela Educação. É a única brasileira membro do grupo "Amigos Adultos do Prêmio das Crianças do Mundo" ao lado da Rainha Silvia da Suécia, Nelson Mandela, ex-presidente da África do Sul e José Ramos Horta, Prêmio Nobel da Paz. Já foi eleita um dos Líderes para o Novo Milênio, numa votação da revista americana Time, em 1999.

Nesta entrevista, ela discorre sobre os principais projetos do Instituto Ayrton Senna e defende que é possível avançar com qualidade e rapidez, pondo fim ao atraso secular da Educação Brasileira.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1) O ensino não vai melhorar enquanto os mestres não forem bem remunerados?
Viviane Senna: Salário e falta de infra-estrutura não podem ser usados como impedimentos à qualidade da Educação. A remuneração do professor, assim como as condições que ele tem para trabalhar, é essencial. Essa bandeira tem de ser defendida, sim, mas ensinar com qualidade precisa acontecer paralelamente. Nossa experiência mostra claramente que esses obstáculos não são determinantes na melhoria do ensino. Se isso fosse verdade, estaríamos condenando a maior parte da população ao fracasso educacional, já que a maioria das crianças e dos jovens vive em condições socioeconômicas desfavoráveis. Temos tido muito êxito com o Programa Acelera Brasil, do Instituto Ayrton Senna, nas regiões mais pobres do País, em escolas de chão batido e onde o professor recebe uma remuneração para lá de sofrível. Mas não temos como esperar isso tudo mudar. Impossível. Seria decretar para sempre o atraso secular da educação pública. O que os nossos programas priorizam, para garantir o sucesso do aluno, é a capacitação pontual do professor, isto é, investir naquilo que o professor revela ser sua deficiência e que compromete seu ensino dando-lhe todo o suporte para que ele possa ensinar e cumprir seu papel da melhor forma.
2) A senhora já disse que, do jeito que o nosso ensino está, o Brasil vai levar 200 anos para atingir o nível de Educação de um país desenvolvido. É possível acelerar essa evolução?
Viviane Senna: O tempo depende das ações que podem acelerar aquilo em que já estamos mais do que atrasados. Um exemplo é o analfabetismo no ensino fundamental que, em pleno século 21, é um dos maiores entraves que impedem o êxito do aluno. O Instituto lançou há pouco uma pesquisa coordenada pelo economista Ricardo Paes de Barros, do IPEA (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), e realizada pela equipe do IETS (Instituto de Estudos de Trabalho e Sociedade). Eles analisaram 947 municípios, que adotaram nossos programas para educação formal no período de 1999 a 2005, comparando-os com municípios similares e usando as informações da Prova Brasil 2005 e censos escolares de 99 a 2005. O crescimento da taxa de aprovação nesses municípios é de 2,8 pontos percentuais ao ano, seis vezes mais veloz que o ritmo anual do crescimento dessa taxa no Brasil (0,5). A taxa de abandono caiu em 1,7 pontos percentuais ao ano, enquanto a média nacional permanece no 0,7 ao ano. Estamos fazendo com que as crianças não desistam da escola numa velocidade duas vezes maior que o resto do país.
3) Houve avanço no quesito idade-série?
Viviane Senna: Na distorção idade-série, os municípios que adotaram os programas são duas vezes mais rápidos na correção do fluxo (3,8 pontos percentuais a cada ano) do que o Brasil, que reduz apenas 2,2 pontos percentuais. Outro dado importante é que, há seis anos, a taxa de reprovação da 1ª a 4ª série está estacionada em 13%. A média da redução na reprovação dos 947 municípios é de 1,2 pontos percentuais/ano, uma considerável melhora em um indicador que o Brasil está estacionado. Vale frisar que essas cidades estão espalhadas pelo Brasil, o que comprova que as soluções educacionais são replicáveis nas diversas realidades. E que acelerar com qualidade é possível, sem dúvida.
4) Quais as fonte de recurso para desenvolvimento do trabalho do Instituto?
Viviane Senna: Uma parte vem do financiamento de empresas. A outra parte vem dos 100% dos royalties sobre uso da imagem de Ayrton Senna e do personagem Senninha, doados por minha família ao Instituto. Temos, atualmente, 240 produtos licenciados. Há ainda a doação feita por pessoas físicas que também querem abraçar a causa da educação. Elas se cadastram no site www.senna.org.br e contribuem para os programas educacionais.
5) Os empresários brasileiros têm feito a parte que lhes cabe na melhoria da qualidade da Educação do país?
Viviane Senna: As empresas socialmente responsáveis têm um papel cada vez mais ativo, por meio de seus próprios projetos ou do apoio às organizações não-governamentais. O nosso trabalho, por exemplo, mostra como essa parceria dá certo: atuamos em 26 Estados e no Distrito Federal em aliança com cerca de 80 empresas, como Bradesco, Credicard, Microsoft, HP e a Vale. Essas parcerias garantem parte dos recursos anuais investidos em nossos programas. O empresariado entendeu que a educação é fundamental para ajudar a diminuir as desigualdades sociais do país. Por isso, tem investido recursos em ações amplas, que possam dar conta de qualificá-la no médio prazo. Ou seja, estamos vivendo novos tempos. Engatinhando ainda, eu sei, mas pelo menos começamos a sair do lugar.
6) Como a iniciativa privada pode se engajar na luta pela melhoria da Educação?
Viviane Senna: É preciso, antes de tudo, estabelecer um objetivo, definir o que se quer. Ações pontuais têm seu valor se o objetivo também for pontual. Vamos supor que uma comunidade resolva ajudar uma creche para melhorar a qualidade de vida de algumas crianças por um determinado tempo. Aí, ela faz campanha para arrecadar roupas e alimentos. Caso a comunidade queira estender os benefícios para todas as crianças da cidade, essa ação não tem sentido. No início do trabalho do Instituto Ayrton Senna fizemos ações pontuais. Mas percebi que elas não condiziam com o desejo de meu irmão e com as necessidades gerais do país. Dávamos tiros pequenos quando o propósito do instituto era oferecer oportunidades de desenvolvimento humano a crianças e jovens, por meio da Educação. Não fazia sentido ajudar uma ou duas escolas, tinha que ser toda a rede de ensino de uma cidade ou de um Estado. Então mudamos o foco e hoje as nove soluções educacionais que criamos e implementamos foram pensadas para a replicação, para a larga escala. Todas têm o mesmo objetivo: o sucesso do aluno na escola, preparando-o para alcançar, também, o sucesso na vida.
7) Como o Programa Acelera Brasil atua nas redes públicas de ensino?
Viviane Senna: O Acelera Brasil está voltado para a gestão, com a proposta de ajustar processos, implantar meios de monitorar e avaliar o aprendizado, corrigir possíveis desvios e otimizar o potencial dos profissionais da educação. Para isso dar certo, tanto a prefeitura, ou secretaria, como a escola têm de assumir uma nova postura frente a Educação. Em primeiro lugar, acreditar que todo o aluno aprende e todo o professor sabe ensinar. Por isso os gestores e educadores recebem capacitação para uso do material pedagógico e orientações sobre gestão da sala de aula. As crianças com defasagem idade-série são agrupadas em salas de até 25 alunos, o processo de aprendizagem é acompanhado por um sistema informatizado (o Siasi - Sistema Instituto Ayrton Senna de Informações) que reúne dados diários sobre a presença de professores e alunos, lição de casa e leitura. Essas informações permitem identificar e superar as dificuldades que podem prejudicar o processo de aprendizado. Uma equipe da secretaria, com nosso suporte, faz o Acelera acontecer no dia a dia.
8) Sob a gestão do Acelera Brasil, o que o aluno deve aprender?
Viviane Senna: O material do aluno reúne, a partir de temas distribuídos em quatro livros, as habilidades e competências previstas nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs), em todas as áreas do conhecimento, envolvendo as disciplinas de Ciências, Língua Portuguesa, Matemática, História e Geografia, para os primeiros anos ou primeira fase do ensino fundamental. O trabalho pedagógico, a partir de temas, implica na articulação entre os diversos campos do conhecimento, onde cada conteúdo abordado é sempre vinculado ao tema proposto, o que evita a linearidade ou a transmissão de conhecimentos estanques. A problematização vinculada ao cotidiano do aluno é a tônica dominante das atividades, levando-o a lançar mão das habilidades desenvolvidas por meio desses conteúdos como estratégia para buscar e encontrar as soluções aos desafios propostos.
9) E o Programa Se Liga? Como ele surgiu e qual seu papel no aprendizado do aluno?
Viviane Senna: Um dos maiores sintomas da baixa qualidade do ensino público é o analfabetismo no ensino fundamental. Dentre os alunos defasados, existem mais de 35% que não sabem sequer ler e escrever. São analfabetos. Diante desse cenário, construímos uma solução educacional em 2001, o Programa Se Liga, que tem como foco a alfabetização de crianças defasadas. Mais de 579 mil alunos, de várias regiões do país, já foram atendidos pelo programa com resultados acima de 98% de alfabetização. O Se Liga permite romper a barreira da não alfabetização, o maior entrave para a permanência da criança na escola e que também compromete o seu sucesso pessoal e profissional.
10) Quais os critérios para avaliar a qualidade da Educação brasileira?
Viviane Senna: A distorção entre a idade do aluno e a série que ele está cursando, por exemplo, é um indicador de má qualidade e ineficiência. Os programas Se Liga e Acelera Brasil, ao trabalharem com escolas e profissionais das redes de ensino, obtendo bons resultados de alfabetização, aprovação e de aceleração com aprendizagem, mostram que a diferença está justamente na gestão, em suas quatro esferas: aprendizagem, ensino, rotina escolar e política educacional. A gestão propriamente dita é aquela capaz de articular os recursos em prol dos resultados, com os devidos ajuste de percurso. A gestão se vale de processos gerenciais e instrumentos administrativos, mas vai além deles. No Acelera e no Se Liga, o acompanhamento de indicadores de processo (cumprimento de calendário escolar, presença de professores e alunos, realização de lição de casa, reuniões de planejamento, visitas de supervisão e livros lidos) é determinante para a qualidade do resultado.
11) Como o Instituto Ayrton Senna pode ajudar a evitar desperdícios do dinheiro destinado à Educação?
Viviane Senna: Devem-se analisar os recursos em função dos resultados. Os resultados pífios em Educação transformam os investimentos em gastos. Um aluno com distorção idade-série já freqüentou, no mínimo, duas vezes a mesma série. Alguns alunos que estão há 3 ou 4 anos no mesmo ano, muitas vezes não podem ser considerados sequer alfabetizados. Ampliar recursos, sim, mas isto não basta. É preciso que sejam bem empregados. O Acelera foca as ações educacionais e, à medida que revela o grande mal da distorção idade-série e o grande bem da correção do fluxo escolar, acaba por colaborar com o melhor aproveitamento do dinheiro público, evitando o desperdício. Isto porque o aluno pode fazer duas séries em um único ano, indo à série mais próxima à sua idade e com os conhecimentos necessários para não repetir mais de ano. Além do mais, os que aparecem, porque fazem parte do processo, são solucionados. Os governantes que nos procuram estão decididos a fazer algo eficiente e concreto para melhorar a qualidade da Educação de sua cidade ou estado. Existe essa vontade política de mudar. E é esse fator que determina todo o resto.
12) Houve um tempo em que a elite era acusada de dificultar o acesso das classes menos favorecidas à escola, para evitar a formação de lideranças politizadas. A senhora acredita que isso tenha ocorrido?
Viviane Senna: A Educação não foi prioridade de ninguém por muito tempo. Servia a poucos e isso mudou a partir da democracia. Abriram mais escolas, mais vagas. No entanto, essa oferta não foi acompanhada por uma qualificação do ensino, o que gerou a dissonância entre qualidade e quantidade. A maioria pode, sim, cursar a escola, mas a minoria é que recebe uma Educação de qualidade. Isso está mudando. Há mais de 10 anos, as ações sociais passaram a focar o ensino público. Hoje podemos mensurar que Educação é essa e o que é preciso melhorar. Temos o Ideb, Prova Brasil, Enem, o Saresp, aqui em São Paulo; são avaliações importantes a partir das quais podemos ter clareza das dificuldades e traçar estratégias para vencê-las.
13) Existe um método de ensino ideal para o ensino público brasileiro?
Viviane Senna: O método não é o que mais importa, mas sim a gestão e o gerenciamento do processo de aprendizagem e de ensino. A prática docente é que faz a diferença, o professor precisa lançar mão de alternativas de ensino para garantir a aprendizagem. Para que o aluno dê certo, são necessárias coisas simples: ter aula, o professor e o aluno estarem presentes e o aluno aprender, principalmente ser alfabetizado. Mas é preciso que o professor trabalhe de forma sistematizada e organizada, mostre para o aluno que ele é agente do próprio desenvolvimento. Para tanto, é importante que o aluno saiba o que lhe compete e o que deverá aprender.
14) Que resultados o Instituto Ayrton Senna alcançou ao longo desses anos?
Viviane Senna: Atuamos há 15 anos e, desde 1994, beneficiamos mais de 11 milhões de crianças e jovens em todo país. Capacitamos mais de 540 mil educadores. Hoje estamos em 1.372 municípios de 26 Estados e Distrito Federal. Somos uma organização que nasceu do sonho de um campeão, de um homem que amava demais o seu país e queria vê-lo crescer em todos os níveis. Temos o dever de fazer dessas crianças e desses jovens também vencedores, na escola e na vida. É para isso que trabalhamos todos os dias.
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