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SISTEMA DE ENSINO

As lições de Nova York

A reforma no sistema de educação pública da cidade americana revela o beabá de uma Educação de Qualidade


Educar

04/08/2009 20:15

Texto
Bruna Nicolielo

Foto: Madalena Leles
Foto: Nova York

"A gestão compartilhada entre setor público e privado nas escolas de Nova York mostra que parcerias podem melhorar a educação"

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Altas taxas de evasão escolar, professores desmotivados e alunos com baixíssimo aproveitamento. A descrição parece se aplicar ao Brasil de hoje, mas refere-se, na verdade, à cidade de Nova York antes de uma reforma educacional. Uma série de medidas elevou a qualidade do ensino e fez com que a cidade fosse considerada um dos sistemas com trajetória de forte melhoria no mundo, segundo um relatório da consultoria Mckinsey, divulgado em 2008.

No último dia 3, a Fundação Itaú Social e o Instituto Fernand Braudel receberam Chris Cerf, subsecretário do Departamento de Educação de Nova York, em evento no Instituto Itaú Cultural. O objetivo era apresentar o Brasil a trajetória desta reforma e reverberar as boas idéias. Além disso, lançar a publicação A Reforma Educacional de Nova York: Possibilidades para o Brasil. Participaram também o vice-presidente da Fundação Cultural, Antônio Matias, pesquisadores do Instituto Braudel, Patrícia Guedes e Norman Gall, e o presidente do Grupo Abril, Roberto Civita.

O evento buscou evidenciar os baixos índices, a violência no ambiente escolar e a importância do estímulo aos professores, da autonomia da escola e discutir possibilidades para o Brasil. "Pesquisas mostram que população brasileira está satisfeita com a qualidade da Educação no país. Precisamos informar o público sobre a real situação do ensino no Brasil e gerar insatisfação. Isso produz resultado!", disse Roberto Civita durante o lançamento.

Em Nova York, os principais eixos da reforma foram o acompanhamento e apoio ao professor em sala de aula e o envolvimento dos pais nos esforços de melhoria da aprendizagem. Programas alternativos para contratação e formação de educadores, autonomia para os diretores e a participação da iniciativa privada completam as estratégias usadas para alavancar o ensino.

As experiências educacionais da cidade americana podem ser adaptadas para a realidade brasileira, inspirando gestores, professores, empresários e políticos interessados em se engajar na melhoria da qualidade de ensino no país. Em São Paulo, por exemplo, já funciona uma parceria público-privada baseada nessas ideias em 10 escolas estaduais.

A experiência de Nova York mostra que é possível avançar. Veja como, a seguir.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Autonomia para os diretores
A autonomia e descentralização é uma das chaves para superar problemas de escala em sistemas escolares de grandes cidades. Na cidade americana, o diretor passou a ser o centro de tomada de decisão sobre o funcionamento da escola que dirige. A Empowerment Zone - ou Zona de autonomia - foi criada em 2004, com a adesão voluntária de 29 escolas. Esse piloto tornou-se uma política pública em 2008. A Zona de autonomia mostrou, entre outras coisas, que os recursos podiam ser usados de forma mais eficiente.

A descentralização deu mais poder aos diretores e conquistou até os mais resistentes. A demanda por autonomia já existia, mas sobrava burocracia. A reforma de Nova York extinguiu as diretorias regionais, nomeando um órgão central. Esse organismo fiscaliza as escolas da rede, aplica avaliações regulares e delibera sobre investimentos na infraestrutura física das escolas.

Hoje, as redes estaduais e municipais brasileiras têm relativa autonomia, mas estão longe de ter a mesma independência das escolas de Nova York. A implantação de zonas de autonomia requer vontade política e uma articulação entre diversos setores.
2. Programas alternativos para contratação e formação de educadores
Programas como o Teach for America conseguem atrair alguns dos jovens mais talentosos dos Estados Unidos para dar aulas às crianças. O desafio de encarar a sala de aula em inicio de carreira dá os jovens impulso na carreira. Os jovens educadores, tratados como "CEOs da sala de aula", são monitorados por tutores, obedecem a metas de desempenho e prestam conta dos resultados alcançados pelos alunos. Só são aceitas inscrições de bons alunos, e, ainda assim, apenas 15% chegam à sala de aula. O caráter seletivo confere prestigio a quem passa pelo programa. Depois do programa, a maioria é recrutada por grandes empresas. Outra estratégia para assegurar professores de alto nível consiste em recrutar profissionais de outras áreas, como advogados, publicitários e engenheiros para o setor da Educação. Já o Leadership Academy oferece treinamento em gestão a diretores.

Vias alternativas de seleção e formação de educadores podem ser uma estratégia para o Brasil, que sofre com a falta de professores qualificados.
3. Envolvimento de pais
Pesquisas em todo mundo mostram que o envolvimento da família na vida escolar dos filhos é vital para o desenvolvimento deles. A parceria pais + professores se tornou tão importante que em Nova York existem políticas públicas específicas para estimular a presença dos pais no ambiente escolar. Uma das principais iniciativas tomadas pela prefeitura foi a de criar a posição de coordenador de pais para cada uma das escolas públicas da cidade. As funções do coordenador são adaptadas de acordo com a realidade de cada escola. Esse profissional trabalha como mediador entre a escola e a família: acolhe os pais, tira dúvidas e ajudam= quem não pode participar de reuniões da Associação de Pais e Mestres. Os coordenadores também trabalham na mobilização dos pais, convencendo-os a participam de oficinas e cursos específicos para eles.

Além de estar diretamente ligada às boas notas, a participação dos pais facilita transições, como a da educação infantil para o ensino fundamental, fortalece vínculos sociais e valores. Pensando nisso, as escolas que ocupam o topo do ranking do Ideb, principal indicador da qualidade da Educação no país, envolveram os pais. Palestras voltadas para os pais são a receita da escola Arminio Giraldi, de Barrinha (SP). "Chamamos psicólogos e educadores da região para ministrá-las. A adesão dos pais é grande", explica a diretora Edmarcia Gomes. Os temas giram em torno da importância de estimular a criança com brincadeiras a postura correta dos pais em relação ao dever de casa. Em Adolfo, também no interior paulista, os cursos de artesanato e capoeira, oferecidos aos alunos no contraturno, envolvem os pais, o que contribui para engajá-los na Educação das crianças.
4. Participação da iniciativa privada
A gestão compartilhada entre setor público e privado nas escolas de Nova York mostra que parcerias público-privadas podem elevar a qualidade da educação. O envolvimento do setor privado se deu com ajuda financeira de empresas e fundações e de apoio em planejamento estratégico. As escolas charter, como são chamadas as instituições que recebem apoio da iniciativa privada, recebem dinheiro público, mas são administradas pelo setor privado. Elas têm papel estratégico, já que são catalisadoras de iniciativas pioneiras na Educação da cidade.

No Brasil, experiências com esse tipo de escola ocorreram no Pernambuco, com a criação de uma rede de escolas públicas de tempo integral. A parceria ocorreu graças à articulação entre um grupo de empresas, a secretaria de Educação do estado e do Instituto de Corresponsabilidade pela Educação (ICE). A participação do setor privado na Educação já faz parte da realidade de muitas escolas brasileiras. Um dos principais indicadores é o estudo do Ipea de 2006. Ele mostra que, em 2004, 600 mil empresas aplicaram juntas 4,7 bilhões de reais em ações sociais (25% desse valor foi para a educação). O estudo similar de 2000 apontava 462 mil empresas investindo no terceiro setor - dessas, 19% tinham foco na educação. Como se vê, a participação da iniciativa privada é crescente, mas falta articular melhor as ações, a fim de evitar a sobreposição de projetos.
5. Relacionamento com os sindicatos
Como ocorre em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil, sindicalistas e gestores americanos não dialogam entre si e os sindicatos se opõem à reformas no ensino. A estratégia de Nova York foi a negociar com os sindicatos de professores e diretores, obtendo uma série de acordos em prol do ensino de qualidade. As negociações, que incluíram o aumento de salários e benefícios de aposentadoria, permitiram implantar sistemas de bônus e até interferir no processo de avaliação em casos de professores considerados incompetentes. Estreitar relações com os sindicatos é tarefa difícil para o nosso país, já que os sindicatos brasileiros são árduos defensores da isonomia salarial.
6. Sistema de avaliação e metas de desempenho
A reforma de Nova York baseou-se na prestação de contas voltada para os resultados. Um sistema de dados online permite aos professores consultar os detalhes acadêmicos de todos os alunos e assim melhorar a aprendizagem de cada um deles. Além disso, a secretaria de Educação exige avaliações periódicas para mapear os pontos fracos e fortes de cada aluno e de cada escola. Análises qualitativas são aplicadas na escola e envolvem todos os segmentos, de pais a funcionários. O objetivo é diagnosticar coerência e alinhamento de todos os envolvidos no processo educacional.

Em 2007, a rede incluiu também a investigação com foco na aprendizagem, estratégia para auxiliar professores a identificar os problemas em relação a cada aluno e sua aprendizagem. No Brasil, indicadores como a Prova Brasil e o Saresp são métodos para responsabilizar os gestores da situação do ensino e avaliar não apenas os aluno, mas também os diretores e professores. Sistematizar dados educacionais, de modo a facilitar o acesso dos educadores, é uma possibilidade para avançar ainda mais no que diz respeito à utilidade pública dessas informações.
7. Apoio ao professor em sala de aula
A Reforma de Nova Iorque implantou um sistema de apoio ao professor que criou a figura do professor tutor. Cabe a esse profissional desenvolver estratégias para as diversas áreas da escola, com o objetivo de apoiar e melhorar o ensino, a gestão e a aprendizagem dos diferentes alunos.

No Brasil, é clara a necessidade de formar melhores educadores, sejam diretores ou professores. Desta forma, a figura do coach, se bem desempenhada, aglutinaria diversas funções para melhorar o ensino. Em Minas Gerais, algo semelhante ao professor tutor foi desenvolvido no Programa de Intervenção Pedagógica. Nele, profissionais trabalham em dupla e visam identificar os problemas e sucessos enfrentados, orientando os professores e gestores de educação. Se bem-sucedida, essa prática poderia transformar-se em uma política pública em todo Brasil.
8. Disciplina e segurança escolar
A prefeitura de Nova York impôs regras disciplinares rígidas aos seus alunos. A política de tolerância zero inclui a repressão à violência e a criação de centros de suspensão - escolas alternativas para alunos suspensos de suas escolas. Uma parceria entre educadores e policiais colocou fim na violência e depredação das instalações das escolas por meio de um trabalho coletivo e planejado. Um programa de orientação para os inspetores foi desenvolvido, a fim de ensiná-los a prevenir e enfrentar problemas de violência escolar. No Brasil, uma aliança entre educadores e Policia Militar e a formação de uma equipe de segurança escolar dentro da Secretarias de Educação podem ser uma estratégia para acabar com a violência nas escolas brasileiras.
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