PROCURAR:        

Educar para crescer

ENEM

Aprovados com louvor

Classificados entre os dez melhores do país no Enem, os colégios São Bento, Santo Inácio e Santo Agostinho disputam, ano a ano, o título de melhor do Rio de Janeiro


Veja Rio

19/05/2009 19:21

Texto
Livia de Almeida e Letícia Pimenta

Foto: Selmy Yassuda
Foto: colégio

Os segredos dos campeões: laboratórios bem montados, carga horária reforçada, professores dedicados e disciplina rígida

----- PAGINA 01 -----

Das dez melhores escolas brasileiras, de acordo com os resultados do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), três estão no Rio: os colégios São Bento, no Centro, Santo Inácio, em Botafogo, e Santo Agostinho, no Leblon. Fundadas por tradicionais ordens religiosas as instituições integrantes da santíssima trindade do ensino carioca competem em uma guerra santa para melhorar cada vez mais a qualidade de sua educação, preparar estudantes para encarar qualquer exame de acesso às universidades e, é claro, ficar no topo do pódio

São fortes os santos do Rio quando o assunto é educação. Mais uma vez, as três escolas cariocas que figuram na lista das dez melhores instituições de ensino do país, de acordo com seu desempenho no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), são ligadas a ordens religiosas. No topo do ranking nacional, pelo segundo ano consecutivo, está o Colégio de São Bento, estabelecimento mantido com zelo por monges beneditinos há 151 anos, que obteve média 80,58. "É um prêmio que todos desejam", comemora o coordenador do 3º ano do ensino médio do São Bento, Pedro Araújo. Seguem-se o Santo Inácio (o segundo melhor do Rio, com 76,09, e o sétimo do Brasil), ligado aos jesuítas, e o Santo Agostinho do Leblon (o terceiro do Rio, com 75,96, e o nono do Brasil), dos agostinianos recoletos. Apenas 13 centésimos separam as médias dessas duas escolas, o suficiente para mexer com os brios dos alunos do Santo Agostinho e desencadear uma campanha em prol da superação. "Foi um resultado muito fraco, ficamos atrás do Santo Inácio", diz Gabriel Kessler, 17 anos, aluno da 3ª série do ensino médio da escola do Leblon, que disputa neste ano uma vaga no curso de economia. "Os professores falam sobre isso em sala. Estamos sentindo a pressão."

Não há como negar que existe uma acirrada disputa entre os três colégios para ocupar o posto de o melhor do Rio. "Mas é uma competição saudável", garante Pedro Araújo, coordenador do São Bento. Abílio Aranha, diretor pedagógico do Santo Inácio, faz coro, apontando para um crucifixo pendurado na parede de sua sala: "Nosso patrão é o mesmo". Todos reconhecem, no entanto, que na hora dos resultados qualquer queda no ranking provoca chiadeira dos pais. "Eles pagam caro pelo ensino e esperam que o investimento frutifique", diz o professor de português Agostinho Dias Carneiro, há quarenta anos na equipe do Santo Agostinho.

No pátio das escolas, comenta-se que grupos de alunos chegam a apostar qual delas vai ficar no topo do pódio. "A gente veste a camisa", orgulha-se Tiago Tavares Flórido, 17 anos, da turma do São Bento que foi campeã do Enem 2008 e ostenta um maravilhoso índice de 90% de aprovação nos vestibulares de universidades públicas. O próprio Tiago colecionou brilhantes colocações: foi primeiro lugar em economia na PUC e no Ibmec, sexto em economia na UFRJ e segundo em direito na Uerj. Morador de Copacabana, ele se acostumou a madrugar desde a 1ª série, para chegar ao colégio às 7h30. Também se acostumou a passar o dia cercado apenas por outros meninos: o São Bento permanece um inexpugnável território masculino, sem a menor intenção de mudar. "Sentimos que é a vontade de nossa clientela", afirma o coordenador Araújo, cuja filha estudou no Santo Agostinho - colégio que só abriu as portas para as meninas em 1969, seguido pelo Santo Inácio um ano depois.

Outra característica peculiar ao São Bento é a carga horária intensa, de 44 horas por semana para as três séries do ensino médio (no Santo Inácio, os alunos do 3º ano têm 40 horas de aulas semanais; no Santo Agostinho, 42 horas). O que diferencia o colégio dos beneditinos é que lá os estudos acontecem em turno integral obrigatório do 1º ao 7º ano. É opcional no 8º e 9º ano e volta a ser obrigatório por todo o ensino médio. "Nosso currículo é abrangente, incluindo história da arte, música, cultura clássica e francês", conta a supervisora pedagógica Maria Elisa Penna Firme Pedrosa. Neste ano, os alunos do 3º ano do ensino médio foram divididos em turmas de, no máximo, trinta integrantes, prática incomum no pré-vestibular. "Com isso, os estudantes ficam mais próximos do professor", diz Pedro Araújo. "Aqui não tem aquela história de turma do fundão, que não presta atenção na aula."

Como o São Bento, o Santo Agostinho e o Santo Inácio têm suas peculiaridades. Na escola do Leblon, é tradicional a ênfase em matemática, física e química. "Somos imbatíveis nessas disciplinas, pois historicamente o colégio tinha tradição em preparar alunos para cursar engenharia e medicina", afirma o professor Agostinho. "Com isso, temos uma defasagem na área de humanas", reconhece. "Gostaria que a escola puxasse mais em humanas", diz Carolina Barcellos, de 17 anos, candidata a uma vaga no curso de indumentária da UFRJ ou da Uni-Rio. "Às vezes parece que eles consideram minha carreira menos importante do que outras, como engenharia." No Santo Inácio, há oficinas de robótica e mecatrônica como atividade extraclasse, além de aulas de empreendedorismo, em que os alunos aprendem a gerir uma empresa.

Existe muito estímulo para que os alunos participem de projetos sociais. "Mais do que oferecer uma simples formação acadêmica, nosso objetivo é formar pessoas capazes de enfrentar a vida lá fora", afirma Abílio Aranha. Aluna da 1ª série do ensino médio, Luísa Pereira, de 15 anos, começou neste ano a dar aulas de inglês na unidade pré-escolar mantida pelo Santo Inácio no Morro Dona Marta. "Quanto mais coisas temos para fazer, mais organizados somos obrigados a ficar", explica Luísa, que estuda na escola desde o início do ensino fundamental. Pedro Rychter, 16 anos, aluno do 2º ano do ensino médio e presidente da microempresa Bag it Up, desenvolvida no colégio, concorda. "Faço inglês, jogo tênis, participo do grêmio e ainda passeio com o cachorro", enumera. "Estou supersatisfeito."

Os santos têm suas diferenças em relação à disciplina. Cabelos longos ou cortes em estilo moicano, piercings aparentes e brinquinhos na orelha estão definitivamente vetados no São Bento. "Às vezes o menino acabou de colocar o brinco e não quer tirar para não fechar o furo. Nesses casos, recomendamos que ponha um band-aid ou esparadrapo para esconder", diz o coordenador Pedro Araújo, que já chegou a emprestar fita crepe para que um aluno cobrisse o brinco. No Santo Agostinho, não existem tais restrições, mas é grande o rigor em relação à pontua­lidade e à entrega de trabalhos. "Os meninos precisam estar em sala às 6h55, porque as aulas começam exatamente às 7h. Quem chega às 7h05 fica impedido de assistir ao primeiro tempo, a menos que tenha uma boa justificativa", afirma o coordenador do 3º ano do ensino médio, Afonso Celso. Os pais são comunicados e, depois do terceiro atraso, há suspensão. "Não temos aluno turista", garante o coordenador. Calças jeans bordadas ou desfiadas, shorts, chinelos e camisas curtas são barrados impiedosamente pelo controle na entrada do Santo Inácio.

Não existe uma fórmula para criar campeões do Enem, prova que privilegia mais a capacidade de interpretar textos, gráficos e imagens do que o mérito de saber de cor o nome de todos os afluentes da margem esquerda do Rio Amazonas. Mas os santos do Rio têm em comum o fato de não viverem a síndrome da aprovação no vestibular que transforma algumas escolas em meros cursinhos preparatórios, voltados apenas para os exames de acesso à universidade. "Temos bons resultados porque investimos na base da pirâmide, nos primeiros anos da educação", diz Maria Elisa Penna Firme Pedrosa, supervisora do São Bento. É importante notar que as três escolas contam com corpos docentes estáveis, motivados e bem remunerados. No São Bento, por exemplo, o salário médio de um professor é de 4 500 reais para uma carga horária de 25 horas semanais. Para manter seus funcionários e professores constantemente atualizados, o Santo Inácio oferece um programa para cursos de capacitação e formação com bolsas de, no mínimo, 50%. No momento, 32 professores e vinte funcionários se beneficiam dessa política. Segundo a professora e pesquisadora de sociologia da educação da PUC Zaia Brandão, as raízes do bom ensino carioca estão nos tempos em que a cidade foi sede do Império e depois capital da República, o que fez com que recebesse as mais tradicionais ordens religiosas. "Quando vieram para cá, já tinham uma forte tradição no campo do ensino e da educação das elites", analisa. "Por isso mesmo, tendem a atrair famílias que, além do investimento na escolarização dos filhos, acompanham de perto os estudos." Com mestres preparados, instalações dignas e a participação da família, a boa educação não precisa depender de nenhum milagre dos santos.


Para ler, clique nos itens abaixo:
Colégio de São Bento
Número de alunos: 1 065
Mensalidade média: 1 700 reais
Colocação no Enem: 1º em 2005, 2º em 2006, 1º em 2007, 1º em 2008

Criada em 529, a Ordem dos Beneditinos, fundadora do colégio, caracterizou-se desde seu início pela ênfase na educação e por possuir mosteiros que eram redutos de intensa atividade intelectual. As obrigações incluíam montar bibliotecas de obras clássicas, escolas de arte, escolas profissionais e centros agrícolas. Maior legado do italiano Bento de Núrsia (480-547) e escrita no ano de sua morte, a Regra de São Bento reforça esse pensamento, sintetizado na máxima ora et labora (reze e trabalhe). Coube à cidade de Salvador a primazia de ter o primeiro mosteiro beneditino da América Latina, construído em 1582. Oito anos depois foi erguido no Rio o segundo convento.
Quem fez: Sérgio Werlang, vice-presidente do Banco Itaú. "O São Bento oferece uma formação cultural profunda. Fiquei muito amigo de dom Emanuel, na época professor de religião. Ele me casou e batizou meus filhos."
Colégio Santo Inácio
Número de alunos: 3 000
Mensalidade média: 1 200 reais
Colocação no Enem: 11º em 2005, 4º em 2006, 3º em 2007, 2º em 2008

Uma das principais armas da Igreja contra a Reforma Protestante, a Companhia de Jesus, ou Ordem dos Jesuítas, responsável pela instituição, via na educação a maneira mais eficiente de difundir a fé católica. Defensores da disciplina, da obediência e da erudição, os jesuítas ergueram as primeiras escolas nas colônias portuguesas e espanholas das Américas. Elaborado no fim do século XVI, seu método de ensino, chamado Ratio Studiorum, reunia regras que pregavam responsabilidade, desempenho e subordinação. Fundada em 1534 e tendo o espanhol Inácio de Loyola (1491-1556) como mentor, a companhia chegou ao Brasil quinze anos depois, com o padre Manuel da Nóbrega.
Quem fez: Arminio Fraga, economista. "Fui um bom aluno no Santo Inácio, acima da média, e pensava em estudar medicina. A grande lição que ficou foi a de sempre buscar a excelência sem perder o foco no lado humano."
Colégio Santo Agostinho
Número de alunos - 2 200
Mensalidade média - 1 000 reais
Colocação no Enem - 2º em 2005, 1º em 2006, 2º em 2007, 3º em 2008

De acordo com Santo Agostinho (354 430), o professor não deve ser um mero transmissor de conhecimento. Cabe a ele indicar o caminho para o aluno construir por si próprio seu saber. O trabalho apostolar, com ênfase na educação e na assistência social, é a base da Ordem de Santo Agostinho, formada na Itália no século XIII e presente em mais de 45 países. Influente pensador ocidental dos primeiros séculos da Idade Média e um dos pilares da doutrina católica, Aurelius Augustinus nasceu numa família pobre, no território onde hoje fica a Argélia. Filho de um pagão e de uma cristã devota, ele só se converteu aos 32 anos. Essa trajetória é narrada na autobiografia Confissões.
Quem fez: Eduardo Paes, prefeito do Rio. "Entrei no Santo Agostinho aos 8 anos, em 1977, e saí dez anos depois. É um grande colégio, e fui aprovado no vestibular sem estudar muito. Em breve meus filhos estarão lá."
   Realização

   Apoio

rodape
Quem faz    |    |  
Política de Privacidade
rodape direita