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Enem: 3º lugar gosta mais de aprender do que de estudar

Samuel Carvalho conta que nunca foi muito estudioso e atribui o excelente resultado Exame Nacional do Ensino Médio ao gosto por aprender coisas novas


Educar

08/05/2009 18:24

Texto
Marina Azaredo

Foto:
Foto: aluno

Samuel admite que não é um aluno disciplinado, mas não dispensa uma boa leitura

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Samuel Carvalho não se considera um aluno estudioso. Esse paranaense de 27 anos sempre teve problemas com as tarefas de casa e listas de exercícios. Mas parece que isso não atrapalhou a sua aprendizagem. Ele ficou na terceira colocação no Enem 2008, ao lado de mais quatro pessoas que, assim como ele, tiraram 97,62. Samuel conta que sempre teve muita facilidade para aprender coisas novas e que é muito curioso, o que lhe ajudou muito. Formado em Ciências Sociais pela UFSCar e atualmente trabalhando no Centro de Direitos Humanos e Educação Popular de Campo Limpo, em São Paulo, ele pretende ingressar em uma segunda graduação, de preferência na USP. Na entrevista a seguir, Samuel fala de seus professores mais marcantes, da importância da família e de como a escola em que estudou - a ETEVAV (Escola Técnica Estadual Vasco Antônio Venchiarutti), em Jundiaí (SP) - foi fundamental na sua formação.  

Os campeões do Enem

1º lugar: Caio Mancini
2º lugar: Renato Lopes
2º lugar: Daniella Rantin
3º lugar: Samuel Carvalho
3º lugar: Leonardo Lage

Saiba tudo sobre o Enem


Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Você se considera um aluno estudioso?
Samuel Carvalho: Na verdade, não muito. Sempre tive problemas com as tarefas de casa. Na sala de aula, gostava muito de aprender novos exercícios, mas fazer aquelas listas de exercícios enormes e repetitivas me incomodava. Acho que o meu forte é justamente o momento do aprendizado. Talvez eu tenha uma facilidade maior para aprender, sou muito curioso, gosto de conhecer coisas, de resolver problemas, descobrir respostas.
2. Como era a sua rotina de estudos durante a escola?
Samuel Carvalho: Apesar de um pouco indisciplinado com tarefas e listas de exercícios, eu não era mau aluno, tirava boas notas. Acho que uma certa facilidade e gosto por aprender compensava um pouco. Sempre fui muito de perguntar e discutir com os professores. Gostava de participar da aula. Quando as aulas eras muito expositivas, sem espaços para perguntas e debates, me dava um sono tremendo! Mas a falta de disciplina sempre acabava me causando problemas, como recado para os pais por não fazer a tarefa, no primário, ou pontos negativos por não completar as lições, nas séries mais avançadas.
3. Como a escola em que você estudou te ajudou a ser um dos primeiros do Enem?
Samuel Carvalho: Apesar de estar a alguns anos sem estudar, eu já fiz uma Universidade - me formei em Ciências Sociais, pela UFSCar, em 2003. Então, apesar de estar longe da escola e dos cursinhos há um bom tempo, acredito que na universidade pude aprimorar o preparo que recebi na escola, principalmente para o tipo de prova que o Enem apresenta. E nesse sentido, acho que a escola em que fiz o Ensino Médio também foi muito boa - fiz o colegial técnico em processamento de dados, numa E.T.E. (Escola Técnica Estadual, do Centro Paula Souza) -, que, apesar de ter uma certa defasagem na grade curricular do ensino regular, não tem aquele modelo de ensino obcecado no vestibular como a maioria das escolas hoje em dia. Desde o início, os professores diziam que aquele curso não preparava para o vestibular - era um curso que pretendia formar profissionais técnicos. Aprendíamos a resolver problemas, construir soluções. Os professores eram muito bons, incentivavam a gente a discutir, chegar às respostas por nós mesmos.
4. Como a sua família ajudou?
Samuel Carvalho: Meus pais sempre valorizaram muito a Educação, apesar de não acharem que, para isso, precisavam colocar os filhos na escola particular. Também tive ajuda do meu avô, engenheiro formado pelo Exército, que estudou várias vezes comigo na época em que prestei o vestibular pela primeira vez. Acho que veio pela da família um gosto por aprender, uma curiosidade que torna divertido tentar entender as coisas, perguntar, discutir... No fundo, acho que o principal papel, tanto da família, como da própria escola, é passar ao jovem o gosto por aprender. Isso vale mais do que uma fortuna paga em escolas particulares e cursinhos.
5. E os professores? Há algum em especial que tenha contribuído para esse resultado?
Samuel Carvalho: Do colégio técnico, em Jundiaí, me lembro bem de alguns bons professores. Um deles foi o professor de matemática, Roberto Matsubara. E olha que nunca gostei muito de matemática. Mas sempre que dava uma matéria nova, ele ensinava não só a fazer o exercício, contava como aquilo tinha surgido, tinha sempre uma história. Dava um outro significado para a "aula de matemática" - era um pouco história, um pouco filosofia. Fazia a gente gostar de aprender matemática. Tinha também outros dois professores que eram muito curiosos... bem heterodoxos. O Wilson, professor de História, já espantou na primeira aula: tínhamos que mudar as carteiras de lugar e fazer um grande círculo na sala de aula. Todas as aulas eram assim. Ele debatia com a gente o tempo todo, nunca falava por muito tempo sem passar a palavra para a sala. Alguns estranhavam bastante, porque queriam que ele passasse a matéria. Eu gostava, adorava discutir. O outro era o Ezercino, professor de Geografia. Ensinou a gente a prever o tempo, comparando o calor do dia (temperatura) com a quantidade de nuvens no céu (umidade)! Nunca mais esqueci! Também dava muito espaço para debate, conversava muito. Esses dois professores eram figuras!
6. Como é a sua relação com os livros? Você lê muito?
Samuel Carvalho: Gosto muito de ler, mas ,como disse antes, sou bastante indisciplinado, o que me fez começar vários livros que não acabei. Mas a maioria eu li até o fim. Hoje, leio com alguma regularidade e peguei mais gosto por literatura - não é a toa que pretendo fazer uma segunda universidade, desta vez em Letras. Lembro que, quando criança, o meu favorito era o Robinson Crusoé, de Daniel Defoe, e O Velho e o Mar, de Ernest Hemingway. Hoje em dia, acho que Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, e Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marquez. Também gosto muito do Saramago.
7. O que você costuma fazer no seu tempo livre?
Samuel Carvalho: Gosto muito de estar com meus amigos e costumo reunir o pessoal na minha casa, pra conversar (geralmente política!), ouvir música boa, ver um filme... O legal é que, com a internet, dá para ter muita música em casa. Dá para conhecer muita coisa nova, e não só a música em si, mas as influências que um artista tem, os movimentos culturais em torno de um estilo de música, enfim toda uma história por trás da música, e a relação dela com o entorno e com outros músicos. Com isso, fui descobrindo muita coisa e aumentando o meu repertório de forma incrível. Com cinema, a mesma coisa – graças à internet, pude aprender muito sobre cinema, diretores alternativos, o que me levou a colecionar DVDs e filmes baixados da internet. Por isso gosto de reunir os amigos em casa: lá tem bastante coisa pra ouvir e assistir. A verdade é que a internet, se bem aproveitada, pode ser uma escola que você freqüenta para o resto da vida, uma fonte interminável de conhecimento, informação e cultura! Claro que não substitui as outras formas, até porque não dá para ficar trancado dentro de casa por muito tempo - não abro mão de ir no cinema, em shows, num bar jogar sinuca ou jogar bola com os amigos num churrasco. Isso sem falar em namorar, né?
8. Por que você decidiu fazer o Enem, que não é um exame obrigatório?
Samuel Carvalho: Porque pretendo fazer um novo curso na Universidade, e o Enem é uma boa ajuda no "tal" do vestibular. Como a nota do Enem vale para o vestibular por dois anos, fiz no passado e pretendo fazer de novo esse ano, já que vale a melhor nota. Vou tentar entrar no curso noturno de Letras, na USP, e espero que o Enem possa me ajudar.
9. Quais são os seus planos para o futuro?
Samuel Carvalho: Não faço planos muito elaborados para o futuro, porque acho que sou muito preso ao presente. Pretendo fazer o curso de Letras, e retomar, mais adiante, uma pós-graduação que comecei, mas não terminei, em antropologia. Estou há algum tempo sem estudar e sinto falta. Acho que a vida é mais empolgante quando a gente está aprendendo coisas novas, e a universidade amplia muito o contato com coisas novas para se aprender.
10. Qual a sua dica de sucesso para quem vai fazer o Enem 2009?
Samuel Carvalho: Acho que pra qualquer prova, uma das coisas mais importantes é a tranqüilidade quando chega o momento de fazer. O nervosismo é o pior inimigo nessa hora. Gosto de pensar, como um artifício psicológico, que vestibular é como o natal: tem todo ano. Se não der esse ano, o ano que vem você tem chance de se preparar melhor. O Enem é a mesma coisa. No final das contas, quando você olhar pra trás, vai perceber que não faria tanta diferença se você tivesse entrado na universidade um ou dois anos antes ou depois. O importante é entrar, por isso vale a pena insistir. Então relaxe e faça a prova com tranqüilidade!
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