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ECONOMIA

Mandamentos do empresário engajado na Educação

Princípios fundamentais para o trabalho do investidor privado pela melhoria da qualidade do ensino no país ser um sucesso


Educar

20/07/2009 15:46

Texto
Patrícia Cerqueira

Foto: Hugo J. Toni
Foto: Mozart Neves Ramos

Segundo Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos pela Educação, não basta investir, é preciso vestir a camisa, participar dos processos e entender a lógica da educação

Países como Finlândia e Coreia do Sul, referências mundiais quando o tema é ensino público de qualidade, só chegaram ao topo dos melhores quando todos - Estado e sociedade civil - sentiram-se responsáveis pela Educação. A importância dada à Educação pelos coreanos é tão expressiva que recebeu o nome de “febre da educação”. O mesmo acontece em países nórdicos como a Finlândia, onde a instrução formal é valorizada pelo Estado e pelas famílias. A força do empresariado agregou valor a essa aliança e também ajudou a impulsionar mudanças. A marca de uma empresa, seu bem mais importante, pode abrir caminhos, e o empresário tem a força de torna-se um parceiro estratégico na mudança do quadro, inclusive no Brasil. Mas, como em qualquer investimento, o que é feito na Educação, para ser eficiente e produzir casos de sucesso, prevê alguns mandamentos fundamentais.

Depois de ler esta reportagem, faça o teste elaborado por Deborah Avelino e Katherine Schulz, do Brazilian Business School, com consultoria do Todos pela Educação e do Parceiros da Educação e descubra se é um bom investidor social.

Para ler, clique nos itens abaixo:
1. Conheça o tamanho do desafio
Nenhum empresário começa um negócio sem antes conhecer a área. O engajado na Educação também. "Iniciar prospectando a área, chamando movimentos, consultores e até fundações envolvidas nesse universo introduz o tema e mostra os desafios a serem enfrentados", diz Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do movimento Todos Pela Educação. Conhecer a Educação brasileira é fundamental para desenvolver um bom plano de avaliação de impacto. "Isso leva à compreensão do valor da intervenção, de quanto ela contribui para a causa da Educação e, então, determinar a relevância de influenciar ou não políticas públicas em Educação, levando os resultados da intervenção à maior escala", afirmam Helena Monteiro e Juliana Gazzotti Schneider, diretoras do Idis (Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social).
2. Acerte a pontaria
"Definir o foco de atuação e planejar a ação são fundamentais para não desperdiçar dinheiro, tempo e garantir um possível sucesso", diz o economista e conselheiro do Educar para Crescer, Claudio de Moura e Castro. O plano deve contemplar as metas a serem alcançadas e medir os indicadores no início dos investimentos.
3. Participe, mas não se imponha
A participação do dono ou presidente da empresa, com visitas à escolas e conversas com gestores públicos, dá legitimidade ao projeto. "Já diz o ditado que nada como o olho do dono para engodar o boi", brinca Marcos Magalhães, do ICE. Chegar mandando, entretanto, atrapalha. "Se um professor entrar numa empresa e vai dando palpites, ninguém vai gostar. O inverso também ocorre. Namore a escola primeiro para depois propor casamento, até porque muitos professores são refratários à ações privadas", afirma Mozart Neves Ramos, do movimento Todos pela Educação.
4. Seja co-responsável
"Não basta colocar dinheiro. Tem de vestir a camisa, participar dos processos e entender a lógica da educação, seu vocabulário, suas gírias e valores, que não são os mesmos do universo corporativo", diz Mozart Neves Ramos, do Movimento Todos pela Educação. Ao entender a Educação como processo que leva gerações, o empresário será co-responsável e saberá o que e como cobrar, entendendo, por exemplo, que um aumento de 0,2 na nota do Ideb não é totalmente ruim. "É preciso saber que não se muda a estrutura da Educação em pouco tempo. O pensamento é de longo prazo, de 10 anos", afirma Fernando Rossetti, secretário-geral do Gife (Grupos de Instituto, Fundações e Empresas).
5. Envolva os funcionários
É preciso, primeiro, dar o exemplo "dentro de casa" para se credenciar como agente capaz de colaborar pela melhoria da qualidade na educação brasileira. "Se uma empresa tem 40% de seus funcionários sem a escolaridade mínima necessária e não faz nada para reverter esse quadro, não consegue ter legitimidade para atuar externamente", diz Mozart Neves Ramos, presidente-executivo do movimento Todos Pela Educação. O trabalho em ações sociais gera motivação entre os funcionários e garante a permanência das ações. "Quanto mais pessoas envolvidas menos risco o projeto corre de desaparecer numa mudança de diretoria e de presidência. Os funcionários tornam-se advogados do programa", diz Marcos Magalhães, do Ice. Incluir a participação dos funcionários facilita também a compreensão deles sobre as decisões da empresa a serem tomadas em períodos de crise financeira, como a demissão de funcionários ao mesmo tempo em que se investe milhões em projetos sociais.
6. Acompanhe, avalie e cobre
As metodologias de impacto da ação e de avaliação devem ser profissionais, com produção de planilhas, tabelas, textos de avaliação. "Todas as ações devem ser acompanhadas e avaliadas sistematicamente para saber se está dando certo e, quando necessário, mudar o percurso para corrigir distorções", dizem Jair Ribeiro e Ana Maria Diniz, empresários e coordenadores do Programa Parceiros da Educação. A partir da avaliação, é possível compreender o valor da intervenção, o quanto ela contribui para a causa da Educação. "A partir deste entendimento, é preciso determinar a relevância de influenciar ou não políticas públicas em Educação, levando os resultados da intervenção à maior escala", afirmam Helena Monteiro e Juliana Gazzotti Schneider, diretoras do Idis (www.idis.org.br).
7. Nunca perca o aluno como alvo final da ação
"O interesse corporativo pela melhoria na educação precisa atingir, principalmente, o aluno. As ações podem vencer todos os obstáculos, mas se o aluno não tiver interesse pelo o que está acontecendo e não souber que estudar é duro, dá trabalho, mas que há uma recompensa no final, perde-se a batalha", diz o economista e pesquisador Marcelo Néri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da Fundação Getúlio Vargas (www.fgv.br/cps/).
8. Acredite na força política para pressionar
"Empresários brasileiros têm excelente tradição de responsabilidade social, mas fraquíssimo desempenho no cenário político", diz o economista e conselheiro do Educar para Crescer, Claudio de Moura e Castro. Tem de usar essa influência política pela educação, ou seja, almoçar com secretários de educação, com diretores de escola, impedir o uso político da educação, forçar a barra em momentos críticos e fiscalizar orçamentos municipais. O economista Gustavo Ioschpe acrescenta que é fundamental os empresários, unidos em grupos ou em movimentos, pressionarem gestores públicos e diretores de escola por uma educação de melhor qualidade para o sucesso educacional do país e da sociedade civil. O empresário reunido em grupo tem força inclusive para assegurar a continuidade do projeto mesmo em mudanças de gestão - política e empresarial.
9. Faça parcerias
Fazer parcerias otimiza recursos e resultados. Ações isoladas, por melhores que sejam, não conseguem fazer a diferença. "O problema da educação no país é tão grande que ações isoladas são gotas no oceano, por isso a importância de se unir a um movimento ou a um grupo para ter força", diz Marcos Magalhães. "Além disso, atuar em parcerias, otimiza recursos e resultados", completam Helena Monteiro e Juliana Gazzotti Schneider, diretoras do Idis. Também é importante articular ações com o poder público. "Quem executa e faz acontecer as ações educacionais, como da alfabetização de crianças, são as secretarias estaduais, municipais e o Ministério da Educação. Ações desarticuladas do gestor público levam a sobreposições de projetos, quando não a projetos opostos, e podem não surtir efeito algum", afirma Mozart Neves Ramos. A parceria com o poder público é fundamental para o sucesso da ação e pode influenciar políticas públicas e aumentar o impacto positivos dos projetos da iniciativa privada. Por isso, o plano de ações deve incluir contrapartidas dos beneficiários. "Melhor que assinar o cheque primeiro, é contar, antes de mais nada, com contrapartidas dos secretários de educação, da Escola, dos seus diretores, ou dos seus corpos docente e discente", dizem Jair Ribeiro e Ana Maria Diniz, do Programa Parceiros da Educação. Assim, é possível incluir metas e cobrar os resultados. "Os investimentos privados em educação potencializam a universalização do ensino no país", dizem Jair Ribeiro e Ana Maria Diniz, do Programa Parceiros da Educação (www.parceirosdaeducacao.org.br/).
10. Mostre os resultados
Elaborar um plano de comunicação para compartilhar as iniciativas e resultados com a sociedade. "A Educação é uma responsabilidade compartilhada e, portanto, é importante comunicar aos vários atores as iniciativas em curso", afirmam Helena Monteiro e Juliana Gazzotti Schneider, do Idis. Além disso, o investimento social tem repercussão sobre a marca da empresa. "Uma ação social descuidada, que tem o objetivo de ser apenas marketing é perigoso. Reportagens negativas sobre o programa social da empresa afetam a marca e os produtos feitos por ela", diz Fernando Rossetti, do Gife.
11. Eleja a Educação como eixo da ação estratégica
"As empresa têm áreas dentro dos programas de sustentabilidade. A educação tem de ser uma dessas áreas, tem de estar no investimento social estratégico da empresas e assim ter a sua continuidade garantida", diz Marcos Magalhães, presidente do Ice (Instituto de Co-Responsabilidade pela Educação).
12. Pense a longo prazo
Educação é um investimento de médio e longo prazo. Por isso, o empresário deve ser paciente, tendo em vista que as ações sociais têm ritmo naturalmente mais lento do que as ações do mundo dos negócios. Pensar a longo prazo também assegura a continuidade dos investimentos, inclusive em períodos de crise. Começar pequeno para se capacitar nessa área também é um princípio importante. "O empresário engajado na educação sabe que ele levará um tempo para aprender as nuances desse novo negócio, que não tem fins lucrativos", afirma Fernando Rossetti, do Gife (www.gife.org.br).

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